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Lenda arariense - A PROCISSÃO DAS ALMAS

  • Foto do escritor: Adenildo Bezerra
    Adenildo Bezerra
  • 23 de jun. de 2022
  • 4 min de leitura


Acalentado pelo sopro sussurrante do vento, um barrufar de águas caídas em gotas chuviscantes e o balir queixoso de alguma ovelha tesmalhada, a perambular pelas ruas, Arari dormia na quietude do som cadenciado e leve, produzido pelo contínuo cair da chuva sobre as palhas de cobertura do casario da Vila.


Era noite de inverno, "escura como breu" (como lá se dizia), mês de abril, noite sem lua; nem uma estrela se podia ver tremeluzir no firmamento limitado da então Vila de Arari. Apesar disso, alguns vagalumes vagueavam, tontos, dentro daquele manto negro, a fosforescência de suas luminosidades, perdendo-se na imensidão tenebrosa de toda aquela escuridão, em que as ruas estavam imersas.


Apesar de tudo, porém, era mais um convite para um adormecer compensador e tranquilo, no aconchego morno de uma boa rede de algodão, atada no silêncio do quarto. Era, deveras, uma noite escura e apavorante, aquela noite de abril, em pleno inverno. Não se via passar uma "viva alma" pelas ruas; nem mesmo os senhores Domingos Chaves e João Ferreira, com seus tradicionais faróis contravento, tiveram coragem de sair à rua, naquela assustadora noite, para suas costumeiras e constantes visitas, que, quando de regresso às suas casas, se pudesse ver, dentro do atro da noite, a luzinha frouxa de seus lampiões a cintilar lá na ponta de uma rua, dando-nos a esperança da existência de uma "alma viva" ou a certeza de que alguém ainda estava acordado.


Todo aquele aspecto deixava a impressão de uma noite anormal, "mal-assombrada". Sem dar muita atenção ao que se podia ver, uma senhora costureira dava continuidade ao seu habitual serão, apesar das objeções de seu marido, advertindo-a de que as noites têm dono, a aquela bem lhe parecia premunciar motivos de fantasmagóricas aparições


Para ser agradável ao marido, fingia dar atenção às suas advertências, que para lhe fazer companhia insistia nesses e outros assuntos, versantes também ao cotidiano da vida do lugar. Aquela senhora, no entretenimento de sua tarefa, quase não dava conta do passar do tempo, assim como dos assuntos abordados pelo marido.


Dominado pela fadiga causada pelo labor do dia, aquele homem resolveu recolher-se ao descanso, advertindo-a, ainda, de que já era quase meia-noite, e esse dia, antigamente, era consagrado às almas, e até procissões eram feitas em devoção a elas. Por isso devia recolher-se também, antes que algo ocorresse.


-Tá bom, já vou. Deixa ou terminar só isto aqui.

-Não demora muito, já é tarde...

-Home, vai indo que eu já vou.


Passado alguns instantes, pigarreou no quarto, o seu companheiro, como sinal de que ainda estava acordado. Dai há pouco a mulher "mergulhou” na concentração de seu predileto serviço, já ouvindo o ressonar do marido, Então vou demorar mais um pouquinho, pensou ela, dando prosseguimento à tarefa.


De súbito, a sua atenção se fez voltar para um ruído ciciante de asas a passar sobre a cobertura da casa e em seguida um estridente grito de uma agoureira "rasga-mortalha" ecoou ao seu ouvido, fazendo-a tremer involuntariamente. Mal sinal, disse consigo, esconjurando aquela inocente ave noturna.


Já se refazendo do susto, daquele instante, foi novamente sacudida por outro abalo causado pelo inesperado som das batidas cadenciadas de seu velho relógio empoeirado, postado em uma das paredes, cruzando os ponteiros sobre o doze do círculo numerado em caracteres romanos (meia-noite). O medo que lhe ia tomando, a levava pensar em aparições de "almas penadas" e mil outras coisas, faladas do outro mundo.


Querendo dominar os efeitos mórbidos daqueles macabros pensamentos, ouviu um respirar profundo e longo, como de quem dorme serenamente. Era o respirar de seu marido, no quarto. Aquele sinal de vida lhe deu nova alma, animando-a a um outro retorno ao trabalho. Reanimada, deu mãos à obra.


Como se tudo já não bastasse, percebeu, ao longe, sons de vozes humanas a entoar cânticos de hinos religiosos - o que ouço? - interrogava de si para si - Cânticos de igreja?... acho que nem pode estar aberta a uma hora dessas. Procissão das almas? É. Deve ser alguém, devoto às almas, pagando promessa, aproveitando-se da noite, por lhe parecer propícia... Ainda bem que eu não estou sozinha acordada.


Lembrando-se das advertências do marido, quis, ir ao quarto. Rumor de passos e som de vozes bem perto, lhe fez parar, pois estranhos movimentos já se percebia passando em frente à sua casa. Dominada pela curiosidade, não resistiu ao desejo de dar uma olhadinha. Abriu metade da janela e viu grande extensão da rua ocupada por pessoas, todas vestidas com chambres brancos, conduzindo velas acesas, cantarolando bendito em louvor às almas.


Estarrecida diante daquele quadro inexplicável, contrastando na escuridão da noite, assistia a tudo como se já estivesse tomada por um forte e longo pesadelo. E ali ficou imóvel até que todos passassem, sem daqueles nenhum conhecer.


Já chegando ao fim da irreal procissão, aproximou-se alguém, daqueles, à janela e lhe ofereceu a sua grande vela, dizendo que daria sorte; que a tivesse como o seu amuleto, seu talismã. A nossa amiga costureira, já satisfeita de tudo que assistia, fechou a janela, colocou a vela no seu oratório e foi ao quarto dizendo de si para si: apesar de tudo, estou compensada de todos os sustos que passei. Deitou-se sem nada dizer ao marido.


Ao amanhecer, levantou-se, e antes de tudo foi ao seu oratório fazer a oração da manhã e ver a sua misteriosa vela que iria transformá-la em seu amuleto protetor. Que desagradável surpresa ao ver ali, em lugar da vela, uma grande tíbia, ou canela, branca e amarelecida, mais parecendo um fóssil retirado de cemitério, naquele dia!


A senhora costureira voltou ao quarto, em desordenados pensamentos, onde já encontrou o seu marido de pé. Este percebendo que algo havia acontecido, apressou-se em socorrê-la, perguntando o que lhe havia sucedido. Tomada pelo nervosismo, mal podia respirar. O marido tentando acalmá-la, não perdeu a oportunidade para lembrar-lhe de suas advertências, dizendo: “eu sempre não vinha te falando que as noites têm dono!?... Agora esquece tudo e vê se te exempla, ouvia, teimosa!


REFERÊNCIA

SOARES, José. Ressonância de Ecos – Prosa e Poesia. Arari, S/D, p. 65-68.

 
 
 

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