A MALDIÇÃO DA NOITE DE FINADOS

Em Arari, os mais velhos sempre alertavam: nas noites de Finados, as ruas pertencem aos mortos. Quem ousasse desafiá-los, vagando pela cidade após o cair da noite, poderia nunca mais ser o mesmo.
Dona Socorro, mulher de fé, nunca deu ouvidos a essas histórias… até a noite em que enfrentou o terror com seus próprios olhos.
Era 2 de novembro. A lua pálida, encoberta por nuvens rasgadas, iluminava fracamente as ruelas desertas. Dona Socorro havia passado horas ao lado de sua comadre enferma, e só se deu conta do tempo quando os sinos da igreja anunciaram onze badaladas. Precisava ir para casa.
O vento gélido soprava pelas esquinas, trazendo um cheiro de vela queimada e terra molhada de cemitério. A cidade estava estranhamente silenciosa, como se segurasse a respiração.
Foi ao cruzar a ponte do Igarapé do Nema que ela sentiu. Primeiro, um arrepio na espinha. Depois, passos.
Alguém a seguia.
Dona Socorro apressou-se, mas os passos também se tornaram mais rápidos. O medo cravou garras em seu peito. Ela não ousou olhar para trás.
O ar pesou. O cheiro de flores mortas ficou mais forte. E então, ouviu uma risada baixa, fria, arrastada…
Seus joelhos quase cederam. Com o coração martelando dentro do peito, enxergou, logo adiante, um grupo de bois deitados no meio da rua. Sem pensar duas vezes, correu e se escondeu entre eles, buscando refúgio.
O que quer que a seguisse parou subitamente.
Dona Socorro sentiu a presença… algo invisível, mas maligno. Um frio sobrenatural a envolveu, e a silhueta sombria pareceu hesitar diante dos bois. Por um instante eterno, o mundo ficou suspenso.
Então, desapareceu.
Ela correu para casa, o corpo tomado por calafrios. Ao cruzar a soleira da porta, desabou. A febre veio como um castigo, e por dias, a lembrança da risada espectral ecoou em sua mente.
Desde então, Dona Socorro repetia para quem quisesse ouvir:
— "Meu filho, nunca saia de casa na noite de Finados… pois os mortos andam entre nós."
留言