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OS CICLOS AGRÍCOLAS DA CANA-DE-AÇÚCAR, DO ALGODÃO E DO ARROZ EM ARARI

  • Por Adenildo Bezerra
  • 20 de mar. de 2020
  • 5 min de leitura

O município de Arari, localizado ao norte do estado do Maranhão, na microrregião da Baixada Maranhense, no decorrer do seu povoamento de mais de dois séculos, no tocante à agricultura, passou por alguns ciclos que foram determinantes para a colonização e participação econômica, sobretudo do cenário estadual. Sabe-se que a trajetória arariense acerca de sua formação histórica iniciou-se tendo a pecuária e a agricultura como atividades principais. A partir de agora faremos um breve histórico sobre esses três processos ocorridos em diferentes épocas da nossa história.

Iniciamos citando MARQUES (1970, p. 90), que enfatizou no seu secular Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão o seguinte:


“A exportação de gêneros da lavoura que consta de arroz e milho, frutas, carne-seca e tabuado, sobe mais de duzentos contos de réis. Mais de vinte mil arrobas de açúcar se fabricam nos engenhos dos Srs. Tenentes-Coronéis José Antônio de Oliveira e José Antônio Fernandes e Alferes Antônio Felipe Pimenta Bastos, sendo o primeiro movido a vapor e um dos melhores estabelecimentos da Província, e o açúcar do segundo notável por sua excelente qualidade”. (MARQUES, 1970, p. 90).


Falando de ciclos da agricultura em Arari, essa citação de César Marques, historiador que esteve em Arari por duas vezes no século XIX, evidencia a pujança que o município teve em relação ao cultivo da cana-de-açúcar e na produção do açúcar destinado à exportação. Sabe-se, também, que a produção açucareira arariense era expressiva e que aqui, em Arari, se produzia um dos melhores açúcares do estado, como bem frisa Marques em seus escritos. Na Fazenda Nova Austrália, que se localizava no povoado Flecheiras, ficava o Engenho Babilônia, de propriedade do Tenente-Coronel José Antônio de Oliveira, segundo administrador de Arari. Posteriormente, essa propriedade passou para o seu filho, José Joaquim Seguins de Oliveira, o Barão de Itapari, e a qualidade do açúcar produzido no Engenho Babilônia continuou com excelente qualidade. O engenho, à época, contava com vastas terras para o cultivo da cana-de-açúcar e com porto próprio no Mearim, para exportação da produção açucareira. Ainda existem as ruínas no engenho no povoado Flecheiras.


De igual modo, o Tenente-Coronel José Antônio Fernandes, primeiro administrador de Arari, investia pesado na produção de açúcar. Ele possuía grandes engenhos no município, haja vista que, durante muito tempo, a indústria açucareira foi bastante aquecida no estado no Maranhão e no Brasil como um todo. Infelizmente não se tem vestígios dos engenhos pertencentes a José Antônio Fernandes. O que se sabe é que um dos seus engenhos se chamava HUMAITÁ. Quando se fala no ciclo do cultivo da cana-de-açúcar em Arari, falamos também em Pedro Saraiva, que durante muitos anos foi proprietário de um grande engenho chamado Engenho Santa Margarida, que depois pertencera ao Sr. Cipriano dos Santos. Até poucos anos, ainda podíamos ver ruínas desse engenho, e ainda existem fotos antigas que o retratam.

Em uma bela crônica, intitulada “Reminiscências”, o geógrafo arariense, José Soares, refere-se com saudosismo ao tempo do ciclo da cana-de-açúcar em Arari, vejamos:


“A exemplo do Brasil Colônia, Arari teve também o seu ciclo de desenvolvimento, baseado na cana-de-açúcar, considerado o período áureo da economia local. A partir da nossa breve lembrança, conhecêramos alguns engenhos, ainda em pleno funcionamento, no centro e na periferia da então Vila, todos movimentados à tração animal (bois-de-carros). Na época da moagem, a Vila acordava desde cedo pelo ranger dolente dos carros-de-bois, a transportar a cana dos canaviais, aos engenhos” (SOARES, s.d. p. 22).


Sabemos da importância da atividade de cultivo da cana, produção de açúcar e seus derivados (rapadura, tijolo temperado, melaço, cachaça), pois existiram dezenas de engenhos em nossa região. O ciclo do açúcar foi intenso e forte em Arari até meados do século XX. Como todo ciclo passa, esse ciclo passou, pois a exportação de açúcar deixou de ser economicamente viável e a própria produção de cana entrou em declínio no município. Ler a crônica de SOARES remete-nos àquele período que deveras foi grandioso e romântico até. O texto do nosso geógrafo é uma rica fonte sobre o tempo em que o cultivo da cana era intenso e os engenhos tocavam a economia de Arari.


Outro ciclo muito forte em Arari foi o cultivo do algodão. Essa força fica evidente quando buscamos informações sobre a famigerada COTONIÈRE. Segundo BATALHA (2011), a Cotonière foi um empreendimento de capital francês. A empresa foi instalada em Arari na década de 1930, para investir no cultivo e no beneficiamento do algodão. As terras ararienses eram favoráveis à produção algodoeira. As instalações às margens do Mearim foram para favorecer a exportação da produção para São Luís e, daí, para a Europa. Um outro ciclo em que Arari acompanhou a tendência estadual, pois o Maranhão, durante anos, foi o maior produtor de algodão do país, e Arari um dos maiores produtores do estado. Sobre o declínio da Cotoniére, o motivo certamente foi a queda na produção e a fuga dos investimentos estrangeiros. Não sabemos ao certo durante quantos anos a Cotonière ficou em atividade, mas foi um dos maiores empreendimentos existentes em Arari durante a sua história.


A tradição agrícola de Arari é repleta de altos e baixos, assim como toda atividade econômica. Vive-se sempre às voltas com crises econômicas e recessões, e isso afeta qualquer ciclo, assim como afetou a ciclo da cana-de-açúcar e do algodão. Mas vamos falar de um outro ciclo agrícola importante para Arari: o cultivo de arroz mecanizado (irrigado).


Em Arari, a agricultura itinerante e de subsistência sempre conviveu com os empreendimentos mecanizados. Com o ciclo do arroz não é diferente. Podemos afirmar, segundo PINHEIRO et al (2005), que o cultivo de arroz mecanizado iniciou em Arari na primeira metade da década de 1970, quando o Departamento de Pesquisa e Experimentação (DEP), fundou, em Arari, o campo experimental, em 1975, com o objetivo de comprovar o potencial das campinas herbáceas da região para a exploração da cultura do arroz irrigado.


De acordo com PINHEIRO et al (2005), em 1980, surgiu em Arari o sistema de plantio mecanizado para o cultivo de arroz em terra baixa. As pesquisas do DEP, mostrando bons resultados na produção de arroz, chamou a atenção de empresários de setor, que começaram a investir na produção em larga escala da rizicultura. Assim, Arari desponta no cenário estadual como uma das maiores fronteiras agrícolas da rizicultura. O solo tipo gleissolo, predominante na maior porção do território arariense, característicos dos vales fluviais, propiciam o cultivo irrigado. A abundância de água do Mearim também é um atrativo importante e preponderante para a prática. Uma vasta área às margens do rio é aproveitada para o cultivo em larga escala do arroz.


Esses três grandes ciclos agrícolas citados: cana de açúcar, algodão e arroz, em épocas diferentes, trouxeram impactos socioambientais e econômicos, tanto negativos quanto positivos. Na questão ambiental esses impactos são mais negativos, uma vez que demandam desmatamento de grandes áreas, uso indiscriminado de água, exploração barata da mão de obra local e poluição, sobretudo pelo uso de agrotóxicos. Minha intenção aqui, com esse texto, é de me ater mais à questão histórica dos ciclos agrícolas, fazendo um breve relato desses três diferentes períodos no processo historiográfico agrícola de Arari.



REFERÊNCIAS


BATALHA, João Francisco. Um Passeio Pela História do Arari. 2ª edição. São Luís, 2011.


MARQUES, César Augusto. Dicionário Histórico e Geográfico da Província do Maranhão. 3ª edição. Rio de Janeiro: Fon-Fon e Seleta, 1970, p. 90.


PINHEIRO, Cláudio Urbano et al. Avaliação de risco de pesticidas aplicados no município de Arari para o Programa de Controle Ambiental do Rio Mearim. Curitiba, 2005, v. 15, p. 43-54.


SOARES, José. Ressonância de Ecos. São Luís, s.d. p. 22.






 
 
 
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